A Voz da Arte: Inteligência Artificial Watson da IBM na Pinacoteca

Em 2017, a IBM comemorou 100 anos no Brasil. Na ocasião, a empresa realizou uma parceria com a Pinacoteca de São Paulo para concretizar o projeto A Voz da Arte.

Consistiu em uma experiência que desenvolveu um aplicativo (assistente cognitivo) capaz de “conversar” com o público do museu sobre sete obras do acervo. Para tanto, recorreu à sua tecnologia Watson, um sistema cognitivo que utiliza a inteligência artificial para aprender conteúdos através de inúmeras fontes: vídeos, fotos, entrevistas, áudios, etc.

Durante seis meses, o Watson foi alimentado com informações sobre história da arte brasileira, as pinturas e seus contextos. Ao chegar no museu, o visitante recebia um smartphone com o aplicativo e um fone de ouvido. Durante o percurso, sensores indicavam a proximidade de uma das obras participantes. A partir daí, por meio de áudio, o visitante poderia fazer as perguntas que quisesse, como quisesse, obtendo as respostas no fone. Trata-se, portanto, de uma experiência individualizada e interativa com aquele acervo.

Pessoas com deficiência auditiva, que possuíssem literacia em português, podiam utilizar o recurso por textos escritos, via chat. Porém, a maioria dos surdos no Brasil não compreende ou escreve bem em português, comunicando-se basicamente por Libras, a Língua Brasileira de Sinais. Aliás, segundo dados da Federação Mundial dos Surdos (WFD), cerca de 80% das pessoas surdas no mundo têm educação insuficiente e/ou problemas com escrita.1

Abaixo, temos um vídeo que destrincha melhor o projeto e a experiência no museu, gravado por um ex-funcionário da IBM chamado Mauro Seguro.

Acima, o vídeo oficial de divulgação do projeto. Apesar de ser um vídeo emocionante, caberia tecer algumas considerações quanto ao recorte escolhido para justificar a ausência dos brasileiros nos museus. Sabemos que o problema é bem mais complexo do que simplesmente a necessidade de interagir com as obras ou questões de gosto. Essa ausência é sintoma de aspectos mais graves, como a desigualdade social ou as deficiências da educação no país.

Não penso que a intenção do vídeo tenha sido simplificar o problema. Porém, um recorte é sempre um recorte e nos revela um determinado olhar, uma decisão sobre o que priorizar no discurso. Acredito que existiriam outras abordagens com maior potencial de contribuição para justificar a importância desta experiência. Inclusive sua capacidade de inclusão e de mediação educativa através do entretenimento digital.

Contudo, isso não tira o mérito do projeto de forma alguma. E nem do vídeo, ficou lindo, na minha opinião. A Voz da Arte me pareceu uma proposta bem inovadora e interessante, com grande potencial de se tornar algo corriqueiro nos museus do futuro.

As implicações que isto nos trará em termos de empregabilidade dos seres humanos e do viés dos algoritmos na transmissão do conhecimento museal ficam para outra ocasião.

Notas

1 – Artigo científico Improving multimodal web accessibility for deaf people: sign language interpreter module, por Matjaž Debevc & Primož Kosec & Andreas Holzinger, DOI 10.1007/s11042-010-0529-8

Vídeo Inteligência Artificial no Museu, Canal Mauro Segura, publicado no YouTube em 4 de Abril de 2017.

Vídeo A Voz da Arte – IBM Watson, Canal Miligrama. mg, publicado no YouTube em 4 de Abril de 2017.

Clique aqui para ler este post sobre A Voz da Arte em inglês e assistir ao vídeo oficial traduzido.

Agradecimentos: Alberto Nogueira Veiga e todos os que me deram seu precioso feedback, obrigada pelos comentários e sugestões.

Newsletter

Em breve teremos um newsletter mensal, com conteúdos exclusivos. Não repassamos seus dados a terceiros e não encaminhamos spam. Cadastre o seu melhor e-mail!  Saiba mais

    Assista também