O avesso do bordado: uma delicada alegoria para a nossa vida

Categorias: Estilo de Vida
Tags: crônicas da vida cotidiana, ética, valores

Começo de ano é tempo de organizar a casa, atualizar os inventários dos armários e mexer nos guardados.

Nesse processo, topei com uma antiga caixinha de linhas de algodão. Remonta há décadas, quando algumas mulheres da minha família se reuniam em roda para bordar, especialmente nas férias de verão.

Adorava trabalhar a linha até que virasse ilustrações coloridas no meu bastidor. Bordávamos pequenas toalhas de mão, sachês para gavetas, fitas para presentes, tampas de vidros para compotas e doces. Nada disso sobreviveu ao tempo nos meus armários.

Junto dos pequenos novelos, restou somente uma tesourinha e alguns retalhos com testes antigos. Uns terminados, outros eternamente a caminho. Uma joaninha, um cacto em flor, pinturas rupestres. O do bisão de Altamira1 ficou só o contorno.

Retalhos com alguns dos meus bordados.

Naqueles tempos, eu visitava cavernas e colaborava como voluntária em pesquisas espeleológicas. Vivi aventuras dignas de um filme, ambientadas em florestas repletas de natureza selvagem e pinturas misteriosas, como as do Vale do Peruaçu (fotos nas notas)2.

Vestígios dos povos que habitaram o Brasil, bem antes das caravelas deixarem a ocidental praia lusitana e irromperem “por mares nunca dantes navegados”. Essas fascinantes janelas para o nosso passado remoto.

A singeleza dos desenhos das cavernas capturadas na delicadeza do bordado enredaram meus pensamentos. Contudo, o que mais me chamou a atenção foram os avessos.

Em meus bordados, tinha bastante preocupação com o lado reverso do tecido. Aquele que não aparece, oculto por detrás do pano. Procurava fazê-lo caprichoso e, sempre que o traçado permitisse, o mais parecido possível com o lado original, ainda que para o meu próprio deleite.

Frente e verso, aqueles bordados estampam uma fina alegoria de quem ambiciona cerzir o cotidiano com ética e significado.

Ninguém é perfeito. Todo mundo é um pouco pior quando chega em casa e tira os sapatos e a persona pública.

Contudo, aqueles que procuram agir de modo harmônico, alinhavando vida pública e privada, atitudes com discursos, sempre terão a nobreza de seus bordados também reconhecíveis em seus avessos. Haverá concordância entre aquilo que se retrata de um lado e o que se desvela do outro.

Manter esse alinhamento no bordado é difícil! Toda bordadeira sabe que se paga um alto preço por ter uma agulha exigente. Contudo, o resultado compensa: nada mais gratificante do que finalizar uma peça e constatar que se lutou o bom combate. Que se acrescentou ao mundo beleza com legitimidade.

E foi assim que, arrumando os armários, bordados antigos interpelaram-me sobre o valor de se costurar a nossa própria vida com coerência.

O avesso dos meus bordados.

Notas

1 – Pinturas rupestres: inspiração para desenhos e bordados.

Desenhos a pastel e carvão que fiz inspirados em pinturas rupestres. No alto, à direita, o bisão do bordado.

As pinturas rupestres das cavernas de Altamira, na Espanha, e Lascaux, na França, bem como as encontradas nos sítios arqueológicos brasileiros, inspiram meus desenhos e bordados.

2 – Expedição ao Vale do Peruaçu – Minas Gerais, Brasil.

Desenhando em meu caderno as pinturas rupestres da Lapa dos Desenhos. Vale do Peruaçu, 2000.
Pinturas rupestres da Lapa dos Desenhos (alto, à esquerda), Dolina dos Macacos (alto, à direita) e entrada da grandiosa Lapa do Rezar, vista da Dolina dos Macacos (embaixo). Vale do Peruaçu, Brasil. Clique na imagem para aumentar a resolução.

O Parque Nacional Cavernas do Peruaçu localiza-se no Norte do Estado de Minas Gerais, Brasil. Sua paisagem natural exuberante é salpicada de sítios arqueológicos milenares e cavernas colossais de tirar o fôlego.

Participei de uma expedição ao Vale do Peruaçu em 2000, onde conheci algumas de suas mais estonteantes cavernas e lapas: Janelão, Rezar, Desenhos, dentre outras. Foi um dos lugares mais incríveis que já tive oportunidade de conhecer em minha vida.

Na ocasião, integrei uma equipe de pesquisadores voluntários que prospectou e topografou cavernas até então sem registro oficial.

Hoje este parque está manejado e aberto ao público, com trilhas bem sinalizadas e visitas guiadas. Na ocasião, o Peruaçu era selvagem, fechado para visitação. Necessitávamos de autorização do IBAMA para realizar as explorações. Para chegar nessas cavernas, atravessávamos estradas de terra em jipes ou caminhonetes 4×4. Depois embrenhávamos na floresta, atravessando matas fechadas por horas, às vezes abrindo picada com facões.

O esforço valia a pena. Majestoso e sublime são adjetivos que cabem aqui. O impacto da visão desses lugares perdidos no tempo é algo que nunca deixará a minha memória.

Também participei de expedições em Pirapora, Caraça e Lagoa Santa.

Agradecimentos: Alberto Nogueira Veiga, Paulo Rocha e todos os que me deram seu precioso feedback, obrigada pelos comentários e sugestões.

Imagens: Tubos de linhas azuis (Ron Lach, Pexels), Bordados (Ana Cecília Rocha Veiga), Desenhando no Peruaçu (algum dos meus amigos bateu a foto para mim, infelizmente não me recordo quem), Pinturas da Lapa dos Desenhos (Ana Cecília Rocha Veiga), Dolina dos Macacos (Wikipedia), Lapa do Rezar (Ana Cecília Rocha Veiga), Desenhos de pinturas rupestres a carvão e pastel (Ana Cecília Rocha Veiga).

Foto de Ana sorrindo. Ana é uma mulher branca de meia-idade, com grandes olhos castanhos e cabelos ondulados com mechas louras, na altura dos ombros.

Ana Cecília é professora da UFMG. Pesquisa gestão inclusiva e tecnologias da informação e comunicação para museus, bibliotecas e arquivos. Mora em Belo Horizonte, Brasil, com o esposo Alberto e seus dois filhos. Ama escrever, ler, desenhar e viajar.

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