Estampas Eucalol e Liebig: Conheça a história destes cartões colecionáveis

Categorias: Cultura
Tags: Antigos Viajantes, Estampas Eucalol, Estampas Liebig, Museus, Ócio criativo, Repositórios Digitais, Viagem
Primeira postagem: 23 junho, 2026
Cartões Liebig e Estampa Eucalol em fundo cinza.

O que são as estampas culturais?

As estampas culturais são fichas de papel cartão com uma ilustração na frente e explicações históricas e/ou científicas no verso. Junto com as explicações geralmente estão impressas propagandas das empresas produtoras do cartão. Estes cartões colecionáveis abordam assuntos diversos, tais como arte, viagens, museus, monumentos históricos, arquitetura, literatura, lendas da antiguidade, música, natureza, descobertas científicas, curiosidades, dentre outros.

Os cartões colecionáveis tiveram o seu apogeu a partir do final do século XIX, na esteira do desenvolvimento da litografia ou impressão multicolorida.

Segundo o vocabulário controlado Art & Architecture Thesaurus do Getty, cartões colecionáveis são:

Cartões emitidos individualmente ou em conjuntos desde o século XIX, principalmente para colecionadores, com uma grande variedade de imagens, como figuras esportivas, estrelas de cinema ou flores. Se os cartões incluírem publicidade, use também ‘cartões publicitários’; se os cartões acompanharem um produto, use também ‘premiums’. Para cartões com anúncios de comerciantes e, às vezes, uma variedade de imagens, produzidos do século XVII ao XIX, use também ‘cartões comerciais’.

Cartões Liebig na Europa

Justus von Liebig (1803-1873) foi um cientista alemão de grande relevância para o campo da química orgânica. Na década de 1840, desenvolveu uma técnica para produção de extrato de carne em pasta ou cubos, enlatada sem necessidade de refrigeração. Este processo prometia concentrar e preservar seus nutrientes e seu sabor.

A Liebig Extract of Meat Company foi uma empresa fundada pelo empreendedor alemão Georg Christian Giebert, que adotou o nome do inventor com sua permissão. Instalou uma grande fábrica em Fray Bentos, no Uruguai, em 1864. Na América do Sul, os reduzidos custos de produção tornavam o empreendimento exponencialmente mais lucrativo. Houve uma intenção de se construir uma fábrica no Brasil, mas a ideia não saiu do papel. (GOULART, 1989, p.24)

Já a base europeia da companhia ficava na Antuérpia (Bélgica), de onde o produto era distribuído para quase toda a Europa. O sucesso da empresa se deu, em grande parte, ao seu preço acessível e à sua atribuída qualidade, mas também à sua estratégia de marketing de associar conhecimento à nutrição, através dos cartões colecionáveis. Seriam, portanto, alimento para o corpo e para a mente.

Esse ideal coincidia com os postulados de publicistas materialistas como Ludwig Büchner e Jacob Moleschott, que, na década de 1850, popularizaram o princípio «Man ist was er isst» (O homem é o que come). Esse lema abrangia a ideia de que o alimento para o estômago era tão importante quanto o alimento para o cérebro e que, para a maioria das pessoas, as condições de vida poderiam ser substancialmente melhoradas por meio de melhor educação e nutrição. (MORCILLO, 2018, p. 230)

Por cerca de um século (1871 a 1975), a Liebig Company publicou 1.871 cartões colecionáveis, obtidos por meio de cupons de compra. Continham propagandas e receitas que poderiam ser cozinhadas com o próprio extrato de carne. Eram divididos em séries temáticas e foram produzidos em diversos idiomas. Se muitas destas estampas celebravam compositores e artistas europeus, temas bíblicos ou a Antiguidade Greco-Romana, aos poucos é evidente o ampliado interesse nos assuntos arqueológicos, geografias “exóticas”, viagens e conquistas coloniais. Com frequência, o conteúdo destas estampas expressava valores ocidentais sob lentes vigorosamente eurocêntricas. Conecta-se, assim, a mentalidade imperialista com os interesses dos consumidores, que através dos cartões Liebig “viajavam” planeta afora, em terras africanas e americanas.

Os cartões Liebig eram impressos coloridos com uma técnica denominada cromolitografia. Pedras separadas eram utilizadas como placas de impressão para as múltiplas cores que, quando sobrepostas, resultavam na imagem final. Trata-se de um processo extremamente trabalhoso, algo que só foi otimizado com a invenção das prensas modernas.

“Litografia tornou possível para a arte gráfica acompanhar a vida cotidiana com imagens.” (Walter Benjamin in MORCILLO, p. 232.)

As Estampas Eucalol no Brasil

Como bem pontuou Gorberg (2000) em seu catálogo raisonné das Estampas Eucalol, há fortes indícios de que estas foram inspiradas nos cartões Liebig. Dentre as inúmeras similaridades, as provas mais evidentes parecem ser as séries 19 – A conquista do México e 20 – O descobrimento do caminho marítimo para a Índia, claramente copiadas dos cartões Liebig emitidos em 1897.

Mas comecemos do começo, para conhecermos a história dos cartões colecionáveis mais notórios do Brasil e, provavelmente, da América do Sul.

Em 1917, o imigrante judeu alemão Paulo Stern estabeleceu no Rio de Janeiro uma pequena indústria e comércio de essências. Utilizou-se do nome de sua companheira brasileira para registrar o empreendimento – Correa da Silva & Cia – tendo em vista a crescente animosidade contra os alemães naquele período. Em 1919, seu irmão Ricardo Stern se juntou ao negócio. Antes de erradicar-se no Brasil, Ricardo foi um jornalista correspondente internacional na Europa.

Nascia, portanto, o embrião de uma bem-sucedida fábrica de produtos para toilette, que ganhou o nome fantasia de Perfumaria Myrta. Dentre seus muitos produtos, destacamos para fins desta pesquisa a linha baseada no eucalipto, chamada de Eucalol. Em 1926, foram lançados os sabonetes de mesmo nome.

Os sabonetes Eucalol, ao contrário dos convencionais nas cores branca ou rosa, possuíam a cor verde, causando estranhamento inicial no consumidor. Mas como estratégia de marketing, em 1930, a Perfumaria Myrta passou a fornecer três estampas de brinde em cada caixa contendo três sabonetes, que impregnavam as figurinhas com o seu perfume. Era possível adquirir, ainda, um álbum específico para colecioná-las.

As estampas, publicadas até 1960, foram um sucesso:

Facilitadas pelas características químicas do produto (sem problemas de perecimento como o cigarro e a bala) e pela estrutura viária, a distribuição das estampas atingia praticamente todos os Estados brasileiros ao mesmo tempo em que fazia instituir, da mesma forma como já ocorria com selos e postais, a organização de associações informais destinadas a orientar e estimular esse colecionismo. Em Porto Alegre, RS, organizou-se um Clube das Estampas Eucalol, integrado por mais de 3.000 colecionadores. (…) A penetração das estampas Eucalol era decorrente de qualidades intrínsecas e da ausência de outros veículos, especialmente nas cidades onde era restrita a circulação de publicações e outros artefatos gráficos informativos ou lúdicos. (GOULART, 1989, p.160-161)

Apesar deste sucesso, na década de 1980, a empresa não suportou a concorrência e fechou as portas, mas suas estampas continuaram a ser apreciadas até os dias de hoje. Assim como os cartões Liebig na Europa, provavelmente as Estampas Eucalol são os cartões colecionáveis mais famosos da América Latina.

Em termos de design gráfico, há uma forte possibilidade de as primeiras estampas terem sido impressas na Alemanha e, posteriormente, em gráficas brasileiras. Em termos técnicos, as Estampas Eucalol eram produzidas com processos distintos das Liebig.

Na série Como se faz uma estampa, lemos no verso dos cartões Eucalol a descrição das etapas da zincografia. O desenho original é primeiramente fotografado. A chapa fotográfica é copiada numa chapa de zinco sensibilizada, preparada em seguida com ácidos. Feitas as provas e cópias nas chapas de zinco, de acordo com o porte da máquina, as estampas são impressas uma cor após a outra. Depois, são cortadas e embaladas. Nas ilustrações desta série, há indicação de seis cores.

Segundo Goulart (1989), as melhores estampas foram produzidas não por zincografia, mas por litografia, impressas a oito cores como nas séries História do Brasil e História Natural. Para ambas, foi contratado o artista gravador Alexandre Oppido, “cromista” que produziu as matrizes que iriam reproduzir a imagem original.

Tendo sido impressas por décadas em diversas gráficas, com resultados visivelmente diversos, as Estampas Eucalol são testemunhos documentais relevantes dos sistemas de produção e reprodução da indústria gráfica do século passado, em um período em que os avanços tecnológicos eram acelerados.

Em termos de conteúdo, as Estampas Eucalol abordaram uma gama variada de assuntos, dos quais destacamos: viagens e lugares no Brasil e no mundo, lendas do Brasil e da Antiguidade, curiosidades mundiais (patrimônio cultural), natureza (cachoeiras, fauna, flora, animais pré-históricos), povos originários do Brasil, literatura (Dom Quixote, histórias infantis), compositores, brasileiros notórios (Santos Dumont, Oswaldo Cruz), história brasileira, bandeiras, brasões, uniformes, escotismo, esportes, moda, danças, dentre outros.

Os anúncios do sabonete Eucalol propagandeavam o colecionismo como “um novo sport!”. Afirmavam ainda: “Quer entreter-se? Quer instruir-se? Colecione as instrutivas e interessantes Estampas do sabonete Eucalol.” E o que antes era divertimento intelectual, agora vira nosso objeto de trabalho e estudo. 

O professor Wagner Antônio Rizzo, em seu livro sobre os cartões Eucalol, sorve de alguns dos mais relevantes intelectuais para proceder seu rico passeio sobre estas finas estampas: Marilena Chauí, Walter Benjamin, Jürgen Habermas, Domenico De Masi, Roger Chartier, Paulo Ricoeur, Theodor Adorno, Pierre Bourdieu, Umberto Eco, Norberto Elias, Néstor Garcia Canclini, Ítalo Calvino, para citarmos alguns. Sobre o ócio criativo, importante conceito do sociólogo e pensador italiano Domenico de Masi, Rizzo pontua:

Articulando a Comunicação, Trabalho e Ócio, João José Curvello considera o cotidiano no recorte do emprego do tempo, assim como o fazem outros estudiosos. Entretanto, o que nele chamou-me a atenção, é seu diálogo com autores como Habermas e De Masi. Especialmente neste último, as reflexões referentes ao ócio criativo me interessam muito proximamente, levando-se em conta a abordagem das Estampas Eucalol como um objeto cultural cujas peculiaridades sugerem indagações quanto a uma prática lúdica, na qual, um viés pedagógico e didático pode se inscrever. (RIZZO, 2014, p.42)

Com uma rica participação no ócio criativo do brasileiro, as Estampas Eucalol entraram para a história das artes gráficas, fazem parte das coleções dos nossos museus e bibliotecas, habitam as páginas de livros que versam inteiramente sobre elas e viraram até música:

Montado no meu cavalo, libertava Prometeu, toureava o Minotauro, era amigo de Teseu. Viajava o mundo inteiro nas estampas Eucalol. A sombra de um abacateiro, Ícaro fugia do sol. Subia o monte Olimpo, ribanceira lá do quintal. Mergulhava até Netuno, no oceano abissal. São Jorge ia prá lua, lutar contra o dragão. São Jorge quase morria, mas eu lhe dava a mão. E voltava trazendo a moça com quem ia me casar. Era minha professora, que roubei do Rei Lear. (Composição de Hélio Contreiras)

As estampas culturais nos museus ao redor do mundo

Diversos museus, bibliotecas e arquivos ao redor do mundo preservam cartões colecionáveis em suas coleções. No Brasil, as estampas Eucalol integram os acervos do Museu Histórico Nacional (Rio de Janeiro), Museu da Escola Catarinense (Florianópolis), Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo, Museu da Força Expedicionária Brasileira – FEB (Belo Horizonte) e Museu Tempostal (Pelourinho, Salvador). Para citarmos alguns exemplos.

Instituições internacionais relevantes também possuem cartões colecionáveis, como Liebig e outros, em seus acervos. São algumas delas: Museu Britânico (Reino Unido), Museu Real de Ontário (Canadá), Biblioteca do Congresso Americano (EUA), Biblioteca Nacional da Austrália e as universidades norte-americanas de Harvard, Princeton, Yale e Cornell.

O National Museum of the American Indian do Smithsonian Institute, através da relevante iniciativa intitulada Smithsonian Digital Volunteers: Transcription Center, traduziu suas estampas alemãs Liebig para o inglês (SMITHSONIAN INSTITUTION, 2026).

O nosso projeto está entrando em contato aos poucos com estas instituições. Algumas delas gentilmente já colaboraram com nossas pesquisas, encaminhando informações relevantes sobre estes cartões em seus acervos, tais como fotografias, conservação e acondicionamento, inventários, catalogação em softwares de gestão de coleções, dentre outras.

Quer saber mais sobre as estampas culturais?

Faça um passeio pelas estampas Eucalol e cartões Liebig no nosso novo Repositório Digital de Estampas Culturais, desenvolvido com o software livre brasileiro Tainacan/WordPress.

Leia, ainda, o resumo da minha palestra sobre este projeto na Universidade de Warwick, Reino Unido: Viajando pela Natureza através das Estampas Eucalol e Liebig

Em breve lançarei aqui nesta plataforma o Manual de Catalogação, Conservação Preventiva e Gestão de Acervos: Estampas Culturais. Este post é parte do conteúdo do e-book gratuito, fruto de nossas pesquisas na UFMG. Fique atento ao blog e inscreva-se na Newsletter para mais notícias sobre minhas publicações!

Notas

GORBERG, Samuel. Estampas Eucalol. Rio de Janeiro: S. Gorberg, 2000.

GOULART, Paulo Cézar Alves. Álbum de Figurinhas: Configurações e Histórias. Dissertação (Mestrado em Jornalismo e Editoração) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 1989. Disponível em: <https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27135/tde-03052024-120619/publico/731310GoulartPauloCezarAlves.pdf> Acesso em: 17 de jun. 2026.

MORCILLO, Marta García. Antiquity and Modern Nations in the Liebig Trading Cards. In: ANSUATEGUI, Antonio Duplá; ELICINE, Eleonora Dell’; MOSTAZO, Jonatan Pérez. Antigüedad clássica y naciones modernas en el Viejo y el Nuevo Mundo. Madri: Polifermo, 2018.

RIZZO, Wagner. Fina(s) Estampa(s): As estampas Eucalol e a memória publicitária brasileira. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 2014.

SMITHSONIAN INSTITUTION. German Advertising Trade Cards Collection: Transcription Center Project. Disponível em: <https://sova.si.edu/record/nmai.ac.288> Acesso em: 17 de jun. 2026.

TAINACAN. Disponível em: <https://tainacan.org/> Acesso em: 17 de jun. 2026.

Foto de Ana sorrindo. Ana é uma mulher branca de meia-idade, com grandes olhos castanhos e cabelos ondulados com mechas louras, na altura dos ombros.

Ana Cecília é professora na Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG, Brasil. Pesquisa gestão inclusiva e altas habilidades nos museus e nas artes. Mora em Belo Horizonte com o esposo Alberto e seus dois filhos. Ama ler, desenhar, caminhar e viajar.

 

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