Memórias de uma biblioteca antiga para um novo ano: 5º aniversário do blog

Categorias: Cultura, Notícias
Tags: Bibliotecas, Blog, Casa da Glória, Diamantina, Filosofia Tropical, Leituras, Produtividade Tropical
Primeira postagem: 1 maio, 2026
Máquina de datilografar antiga com uma folha branca, onde se lê: Filosofia Tropical

A biblioteca da casa da minha infância tinha dois cômodos. O primeiro abrigava várias estantes apinhadas de livros do meu pai e da minha mãe, um sofá, uma mesa grande para quatro pessoas, um quadro a giz para estudos e um lavabo.

O segundo cômodo era o escritório de meu pai, mas todos nós podíamos usá-lo livremente. Estantes e armários de madeira escura, também cheios de livros, uma grande poltrona de couro marrom para leituras, uma mesa ladeada por fotografias de filósofos e uma coleção de discos de vinil.

(Vamos dar contexto neste parêntese para quem caiu aqui de paraquedas… esta que vos escreve nasceu no final da década de 1970!)

A seleção da biblioteca da minha infância era excelente. Muitos livros de filosofia, literatura, teologia, enciclopédias, artes e os grandes clássicos.

Hoje possuímos todos nós acesso à uma biblioteca portátil infinitamente melhor e maior, a um clique de distância, no nosso computador ou celular. Eu comprei uma linda bolsinha para guardar meu e-reader na mochila, que diz: “Livros, livros, livros – Tantos livros e tão pouco tempo.

E-books no e-reader ou livros de papel?

Apesar de preferir ler livros no e-reader pelas inúmeras praticidades, preciso reconhecer que meus pais e a nossa biblioteca tradicional do milênio passado deram o seu importante quinhão de incentivo para o meu imenso amor pelos livros.

Primeiro, porque eles estavam sempre lendo. E dizem que as crianças não dão ouvidos aos conselhos dos adultos, porque estão ocupadas demais observando o que eles fazem. Concordo com isto.

Segundo, porque acabei criando pequenas “tradições” nas quais eu lia alguns livros mais ou menos na mesma idade ou época da vida que eles leram. E agora passamos a “tradição” dos nossos livros preferidos para nossos filhos, que já são leitores vorazes.

Terceiro motivo, porque aquela biblioteca – o maior e mais agradável espaço da casa na minha opinião – era um testemunho verdadeiro do autêntico papel dos livros em nossas vidas. E explico melhor o que quero dizer com isto.

Biblioteca como símbolo de status ou refúgio secreto de leitura?

Ao contrário do que talvez possa parecer pela minha descrição, a biblioteca da minha infância era um lugar simples e com mobiliário despojado. Um ambiente familiar privado. E não ficavam nem dentro da casa onde morávamos, mas em um barracão de dois andares no fundo do quintal, acima do nosso quartinho de brinquedos e da área de serviço.

Atrás da jabuticabeira – uma árvore frutífera tropical brasileira que produz deliciosos frutos chamados jabuticabas (foto abaixo) – ocultava-se uma estreita e mofada entrada para uma tímida escadinha de piso vermelho. E lá no fim desta escadinha se escondia o recanto secreto dos livros.

Apesar da fartura de livros, a biblioteca não existia para ser ostentada como símbolos de status ou decoração sofisticada. Era uma biblioteca do cotidiano, para ser simplesmente… lida!

Um lugar no qual nós, crianças, descobríamos o mundo nas páginas dos livros e brincávamos livremente, sem regras frívolas ou medo de quebrar ou estragar nada. Com exceção dos discos de vinil, claro, com os quais tínhamos que tomar muito cuidado.

Eu amava aquela biblioteca! Para mim, era um lugar mágico, com seu pé direito baixo, seu teto de charmosos tijolos cor terra e seus armários misteriosos. Parecia que se um dia eu puxasse o livro certo, alguma porta secreta iria se abrir.

Eu passava horas da minha infância ali lendo, orando, brincando e escrevendo nos meus inúmeros diários com minha caneta tinteiro.

Nada contra bibliotecas caprichadas e livros esteticamente atraentes. Depois do livro digital, eu praticamente só compro um livro físico para mim se ele não estiver disponível em e-book. Ou se ele for, por si mesmo, um objeto de arte. E de fato eles ficam lindos na estante.

Mas a liberdade, informalidade e familiaridade que eu tinha na biblioteca da minha infância certamente contribuíram para que me fosse passada a mensagem de um amor genuíno por aqueles livros.

Liberté, informalité, familiarité

Leituras reflexivas na juventude

Na faculdade, o meu interesse por leituras reflexivas ganhou mais corpo. A área de Patrimônio Cultural é muito filosófica. Fiz bolsa de iniciação científica e participei de vários projetos sobre patrimônio na graduação e pós-graduação.

Li muitos filósofos, sociólogos, antropólogos e teóricos do campo cultural quando era estudante de arquitetura e urbanismo. E, depois, também no doutorado em arte e tecnologia da imagem, na Escola de Belas Artes.

Na verdade, as primeiras disciplinas que ministrei como professora na UFMG, minha universidade, eram de história e teoria, não de gestão ou tecnologia. Chamavam-se “Arquitetura e Cultura Brasileira” e “Viagens Culturais”.

Esta última, ministrei em Diamantina – uma pequena vila barroca no interior de Minas Gerais, que é considerada Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO. Ficamos hospedados no alojamento da universidade, a Casa da Glória.

A Casa da Glória (foto abaixo) é uma edificação incrível do século XVIII com um charmoso passadiço. Nos séculos passados, recebeu alguns dos notórios antigos viajantes que passaram por ali, como Saint Hilaire, John Mawe, Ludwig von Eschwege, Spix e Martius.

Li um livro que fala de Spix e Martius recentemente! Um retorno imaginativo às estantes da minha juventude, quando descobri pela primeira vez os diários de viagem destes cientistas bávaros. Claro, na biblioteca de meus pais. Foi uma grande emoção ficar hospedada ali na Casa da Glória, onde estes antigos viajantes também estiveram!

Um retorno às minhas “origens filosóficas”

Compartilho com vocês estas memórias, porque no último ano foi um tempo de reencontrar muitos dos autores que me foram excelente companhia na juventude. Paulo Freire, Domenico de Masi, Bertrand Russel, Pierre Bourdieu, Habermas e por aí vai. Dar este pulo nas leituras do passado me fez muito bem.

Ao mesmo tempo que estes autores nos escancaram as crueldades do capitalismo e do colonialismo – razões pelas quais o mercado da produtividade anda tão tóxico, aliás – procuram manter viva a chama da esperança. Confesso que este sopro de esperança chegou em boa hora, a minha chama andava cambaleante.

E chegamos ao meu ponto principal aqui hoje com estas lembranças, no quinto aniversário deste blog. No ano retrasado, o blog ganhou uma nova logo: Produtividade Tropical. E o conceito continua vivo, adoro produtividade e continuarei a escrever sobre este assunto. Contudo, com um viés mais da filosofia e da sociologia do trabalho. Assim, neste ano que se passou, a logo virou Filosofia Tropical.

Quero voltar cada vez mais às minhas origens e leituras filosóficas, aos valores (confessadamente utópicos) e prioridades (confessadamente ociosas) da minha juventude.

Aos tempos morosos e descompromissados das tardes mornas dos feriados, nas quais eu investia mais horas lendo sobre o ócio criativo e diários dos antigos viajantes do que sobre como otimizar o meu trabalho ou a minha vida digital. Afinal de contas, havia muito menos digital para ser otimizado. Feliz da jovem Ana!

Não obstante, mesmo hoje, podemos escolher desligar o celular e abrir um livro. Assistir documentários inteligentes no lugar de vídeos do YouTube. E nas livrarias (presenciais ou virtuais), frequentar as seções de sociologia, história e filosofia no lugar das de administração, produtividade e autoajuda.

É um ótimo propósito para o Dia do Trabalhador, aliás!

Aniversário do blog e planos para o novo ano de vida

Esse reencontro com minhas “memórias filosóficas” está rendendo bons rascunhos de textos sobre produtividade e qualidade de vida com um sabor tropical. Infelizmente, por motivos que fogem explicar aqui, precisarei esperar um ano ou dois para publicá-los para vocês. Mas virão, aguardem, por favor.

Enquanto isto, minha nova Newsletter finalmente está no ar, com conteúdos antecipados somente para os inscritos. Se você gosta do blog, por favor, não deixe de se inscrever!

E quero em breve lançar aqui uma coleção on-line de fotografias com recursos de acessibilidade e inclusão para museus, bibliotecas, arquivos e galerias.

A parte do blog já está pronta há um bom tempo, na verdade. A parte da catalogação profissional de bastidores destas fotos é que está dando mais trabalho, pois a organização desta coleção faz parte de meu projeto de extensão na universidade.

Também falaremos mais sobre Altas Habilidades, já que em 2026 começamos um novo projeto de pesquisa com este tema.

Enfim, muitos assuntos para os próximos cinco anos. Meu desejo é que vocês continuem me concedendo o privilégio e a alegria da visita, porque eu amo escrever este blog para vocês.

Obrigada pela companhia, queridos leitores e leitoras. Bom descanso neste feriado!

Imagens: Máquina de escrever (Pexels com a ajuda da IA para o texto escrito), Jabuticabeira (Wikipedia), Casa da Glória (Ana Cecilia Rocha Veiga).

Foto de Ana sorrindo. Ana é uma mulher branca de meia-idade, com grandes olhos castanhos e cabelos ondulados com mechas louras, na altura dos ombros.

Ana Cecília é professora na Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG, Brasil. Pesquisa gestão inclusiva e altas habilidades nos museus e nas artes. Mora em Belo Horizonte com o esposo Alberto e seus dois filhos. Ama ler, desenhar, caminhar e viajar.

 

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