Embasamento Teórico destas Recomendações
Este post apresenta recomendações para conservação preventiva de Estampas Eucalol ou outro cartão colecionável.
Estas recomendações se fundamentam nas diretrizes de instituições referência do campo da conservação preventiva para museus, arquivos e bibliotecas, tais como Getty Conservation Institute, Collections Trust, Conselho Internacional de Museus (ICOM), Biblioteca do Congresso Americano, Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), Laboratório de Conservação e Restauração de Documentos (Labcon/UFSC), dentre outras. Destacamos, ainda, o CECOR/UFMG.
O doutorado da autora deste blog, em Arte e Tecnologia da Imagem, linha de pesquisa em Conservação Preventiva, tomou curso na Escola de Belas Artes (EBA/UFMG), onde está sediado o Centro de Conservação e Restauração de Bens Culturais (CECOR). O CECOR é reconhecido como referência internacional na área, e seus pesquisadores atuam também como docentes no Programa de Pós-Graduação da EBA/UFMG.
A tese resultou na publicação do livro Gestão de Projetos de Museus e Exposições, que inclui um capítulo dedicado à Conservação Preventiva. A obra contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) e é adotada como referência em concursos públicos para professores e profissionais da área de museologia e patrimônio cultural.
Um dos estudos de caso que embasou a elaboração do capítulo sobre Conservação foi a visita de pesquisa realizada pela autora nos bastidores e reserva técnica (RT) do Louvre (Paris, França). O Louvre adota protocolos rígidos de conservação e possui mobiliário próprio desenvolvido especialmente para garantir a consulta segura ao acervo e a salvaguarda das coleções de desenhos em pastel da sua RT, como vocês podem observar nas fotos da minha visita a seguir:

Importância da Conservação Preventiva das Estampas Culturais
Este texto tem por objetivo fornecer informações que auxiliem os colecionadores e as instituições GLAM (Galerias, Bibliotecas, Arquivos e Museus) a protegerem as estampas culturais dos dez principais agentes de deterioração que podem comprometer sua integridade:
- Forças Físicas.
- Criminosos (furto, roubo, vandalismo).
- Fogo.
- Água.
- Pragas.
- Poluentes.
- Luz e radiação ultravioleta (UV) e infravermelha (IV).
- Temperatura incorreta.
- Umidade incorreta.
- Dissociação (separação entre objeto e as informações relativas a ele).
Os cartões colecionáveis se configuram como objetos de natureza efêmera e, em geral, baixa longevidade. Apesar dos inúmeros desafios inerentes à sua preservação, coleções de estampas culturais possuem reconhecido valor histórico, artístico, econômico e afetivo, justificando sua salvaguarda.
Considerando suas características materiais impermanentes, nem sempre se justificam investimentos elevados de recursos financeiros e humanos em intervenções voltadas à estabilização avançada da sua degradação, excetuando-se casos específicos de maior relevância ou raridade.
O papel utilizado na produção destas estampas geralmente apresenta baixa durabilidade intrínseca. Processos de deterioração, como o amarelamento, tendem a evoluir progressivamente ao longo do tempo, resultando em danos irreversíveis.
A vida útil deste tipo de acervo é, portanto, relativamente limitada quando comparada ao material de outros suportes em papel, a exemplo de livros ou obras artísticas produzidas em papel de algodão. Ainda assim, o acondicionamento adequado e o controle das condições ambientais contribuem significativamente para desaceleração dos processos de degradação.
Tendo em vista esta natureza efêmera e visando a ampliação do acesso e difusão do conhecimento, o nosso projeto de pesquisa contempla não apenas a preservação física das estampas, mas também sua digitalização e disponibilização em repositório digital on-line acessível.
Vamos, portanto, aos protocolos e recomendações do projeto para esta tipologia de acervo. A coleção de estampas culturais deste post pertence à autora do blog e lhe foi confiada como legado pela sua avó materna.
Espaço de trabalho para conservação das estampas
O espaço de trabalho deve ser instalado em ambiente limpo, seco e bem ventilado, contendo uma mesa desobstruída. Caso tenham sido aplicados produtos de limpeza sobre a mesa, como álcool, é necessário aguardar sua completa evaporação. Em seguida, recomenda-se realizar nova limpeza com pano seco, a fim de garantir a total remoção de resíduos de produtos, que precisam ser neutros.
A mesa deve ser branca ou revestida de papel branco, de modo a facilitar a visualização de sujidades, partículas soltas e eventuais fragmentos desprendidos durante o processo de higienização e conservação. Higienizar a mesa ou substituir o papel por um novo sempre que apresentar excesso de sujeira.
Em caso de estampas com elevado grau de sujidade, recomenda-se a realização da limpeza em área delimitada, denominada comumente de capela de higienização. Caso não se disponha de um mobiliário profissional, é possível improvisar uma capela, pois se trata de uma estrutura simples em formato de “caixa”. Confeccionar com papel rígido ou cartolina as abas laterais dobradas para cima, atuando na contenção da poeira e dos resíduos gerados durante o processo de conservação das estampas.

EPI – Equipamentos de Proteção Individual
Idealmente, o trabalho de higienização deve ser realizado com o uso de equipamentos completos de proteção: luvas, máscara, jaleco de mangas longas, touca e óculos.
No mínimo, recomenda-se o uso de máscara e luvas durante o processo de higienização mecânica das estampas, especialmente na presença de sujidade excessiva ou indícios de contaminação biológica.
O uso de máscara protege a saúde do profissional da conservação, além de reduzir a emissão de gotículas e a umidade da respiração. O uso de luvas contribui para evitar a transferência de oleosidade e sujidades da pele para a superfície da estampa. No entanto, não há consenso na área de conservação quanto à sua obrigatoriedade.
Entre as desvantagens das luvas, destaca-se a redução da sensibilidade tátil, o que pode dificultar o manuseio e, em alguns casos, aumentar o risco de danos físicos aos suportes em papel. O tato é importante para reconhecer a pressão correta a ser aplicada na estampa, bem como para não a rasgar ou dobrar involuntariamente. Independentemente da adoção de luvas ou não, é imprescindível que as mãos estejam previamente higienizadas com sabonete neutro e completamente secas antes de qualquer manuseio.
Neste projeto, optou-se pelo uso de máscara e luvas durante os procedimentos de higienização e manuseio de exemplares considerados mais sensíveis, valiosos ou possivelmente contaminado por fungos. Por outro lado, o uso de ambos é dispensado em situações de fruição das estampas, considerando tratar-se de uma coleção particular com vínculos afetivos. Neste caso, garantimos apenas que todos os fruidores estejam com as mãos bem higienizadas e secas. E que manipulem as estampas com cuidado e atenção.
Higienização Mecânica
A higienização objetiva a remoção por processo manual mecânico das sujidades e materiais estranhos da estampa.
Cada estampa deve ser higienizada em frente e verso, utilizando pincel ou trincha macia, preferencialmente de cerdas naturais. O instrumento deve possuir cabo longo, para bom equilíbrio, e não deve conter partes metálicas expostas ou salientes que possam danificar a superfície do papel. Recomendamos um pincel hake do tipo trincha chata.
As pinceladas devem ser realizadas de forma suave e uniforme sobre toda a superfície da estampa. Recomenda-se que os movimentos sejam feitos no sentido contrário ao corpo do operador, evitando o deslocamento de sujidades em sua direção. Movimentar mais o cotovelo do que o punho. Durante o procedimento, utilizar apenas as cerdas do pincel, sem encostar o cabo na superfície da estampa.
Quando necessário, pode-se empregar pó de borracha para conservação, realizando movimentos circulares leves. Após a aplicação, o resíduo deve ser removido com o auxílio de pêra sopradora.
Sempre que possível, e desde que não haja risco de danos, recomenda-se a remoção cuidadosa de elementos estranhos, como grampos, fitas adesivas já soltando facilmente, depósitos superficiais e outras sujidades aderidas. Para esses casos, podem ser utilizados instrumentos como bisturi ou espátulas, desde que manejados com extremo cuidado e apenas quando a limpeza com pincel não for suficiente.

Acondicionamento e Documentação
Utilizando lupas, microscópios e máquinas fotográficas, analisar a estampa e registrar os detalhes na ficha de catalogação, seção Conservação e Tratamento (Veja um exemplo de ficha de Conservação preenchida de Estampa Eucalol clicando aqui). Realizar um levantamento fotográfico completo, documentando todas as avarias. Registrar, ainda, o “antes e depois” de procedimentos que ultrapassarem a mera higienização mecânica. Uma vez higienizada e analisada a estampa, o próximo passo é o acondicionamento desta.
A acidez constitui em um dos principais fatores de degradação dos papéis, contribuindo para processos como amarelamento, perda de resistência mecânica e aumento da fragilidade ao longo do tempo. Embora compostos ácidos estejam presentes tanto na celulose quanto nos materiais utilizados na produção das estampas culturais, sua ação pode ser agravada pelo contato com invólucros inadequados. Daí a importância de nos preocuparmos com as embalagens que escolhemos para preservação do acervo.
Estampas culturais podem ser acondicionadas em embalagens transparentes confeccionadas em filme de poliéster de qualidade arquivística, como Melinex ou Mylar. Esses materiais apresentam elevada estabilidade química e permitem a visualização dos cartões sem a necessidade de manuseio direto, sendo especialmente recomendados para situações de consulta frequente. Para maços maiores, pode-se confeccionar jaquetas de poliéster sob medida.
No transporte das estampas culturais, por exemplo, para exposições temporárias, trocas, doações ou atividades educativas na UFMG, envolvemos os invólucros de papel das estampas em envelopes de polipropileno com qualidade arquivística. Estes envelopes possuem dupla orientação ultra transparente, sendo livres de ácidos e de PVC.
Já para a guarda de longo prazo, optou-se pelo uso de invólucros em papel, considerando que o manuseio das estampas não será tão frequente. O uso de papel oferece proteção mecânica e favorece a troca de umidade com o ambiente (“respiração” da estampa).
Papéis neutros ou livres de ácido (acid-free) são aqueles cuja acidez foi reduzida ou neutralizada durante o processo de fabricação, frequentemente por meio da adição de reservas alcalinas. Esses papéis, como o Filifold Documenta da Filiperson, disponíveis em casas para restauradores e lojas de material arquivístico, são excelentes opções para o acondicionamento das estampas. Devem, no entanto, ser monitorados e substituídos caso apresentem sinais de degradação, como amarelamento ou perda de integridade.
O padrão ouro de excelência em conservação preventiva, contudo, consiste na utilização de papéis de alta qualidade, com pH neutro (7,0) ou levemente alcalino (7,5 a 10), preferencialmente produzidos a partir de fibras de algodão, linho ou cânhamo, que apresentam maior estabilidade química e durabilidade quando comparadas à polpa de madeira.
Adotamos um sistema multicamadas de proteção para a coleção de estampas culturais: caixa, folder externo, envelope em cruz e folder interno (estampas individuais raras, com danos ou com histórico afetivo). A seguir, são apresentadas orientações sobre os materiais e os métodos de confecção desses acondicionamentos.
Caixa Padrão Museológico e Arquivístico
Foi utilizada no projeto uma caixa de conservação padrão museológico com qualidade arquivística, fabricada em cartão micro ondulado, livre de ácido e lignina, 100% composta por alpha celulose e reserva alcalina de 2% de carbonato de cálcio, apresentando elevado grau de permanência. A caixa foi confeccionada pela empresa especializada Conservart – Molducenter, e acondiciona a coleção completa, composta por quase mil estampas.

Na impossibilidade da aquisição de caixas de padrão museológico, recomenda-se o uso de caixas ou pastas em polipropileno corrugado (popularmente conhecido como “polionda”), preferencialmente na cor branca. Essas caixas-arquivo oferecem boa proteção mecânica e relativa estabilidade química. Dar preferência para chapas com gramatura aproximada de 500 g/m².
Estas pastas para arquivos podem ser facilmente encontradas em papelarias de maior porte, devendo ser substituídas sempre que apresentarem sinais de desgaste, deformação, manchas ou outros indícios de degradação.
Não se recomenda o uso de caixas comuns de papelão para armazenar as estampas culturais, especialmente aquelas de coloração marrom, como o kraft. Em geral, esses materiais apresentam alta acidez e presença de lignina, fatores que contribuem gravemente para a aceleração dos processos de degradação das estampas.
Folders, Cintas e Envelopes de Papel
As séries de estampas foram acondicionadas em invólucros do tipo folder, confeccionados pela autora do blog com papel de alta qualidade arquivística, naturalmente livre de ácido. Optou-se por papéis de padrão artístico devido à sua elevada durabilidade e maior gramatura.
Papel do Folder
Os folders consistem em “pastas” – invólucros dobrados com folha vincada ao meio, que envolvem as estampas, protegendo-as em frente e verso contra danos mecânicos, abrasão e deposição de sujidades.
Para a sua confecção, foi utilizado o papel Classic Watercolour Paper, da linha Saunders Waterford Series. Trata-se de um papel para aquarela, 100% algodão, gramatura de 300g/m2 (140lb), textura satinada e coloração White (naturalmente creme claro). O papel é produzido por uma fábrica inglesa fundada em 1700, a St Cuthberts Mill. E é endossado pela Royal Watercolour Society. A fabricação é realizada por meio de moldagem tradicional em cilindro (mould-made), técnica que contribui para a qualidade e uniformidade das fibras.
Esse tipo de papel apresenta elevada estabilidade química e resistência mecânica, sendo adequado para o acondicionamento de longo prazo. Sua alta gramatura contribui para a proteção estrutural das estampas, enquanto a superfície lisa reduz o risco de abrasão.

Papel das cintas e envelopes
As cintas de papel consistem em tiras de contenção utilizadas para manter os conjuntos de estampas organizados e estáveis. Podem envolver tanto maços de estampas — no caso de séries com maior número de itens — quanto os folders que acondicionam séries menores.
Os folders individuais e os envelopes em cruz são invólucros destinados à proteção de estampas específicas, especialmente aquelas de maior raridade, alto valor monetário e/ou afetivo. Também é utilizado para as estampas que apresentem algum grau de degradação. Seu uso contribui para o isolamento físico dos itens selecionados, reduzindo o risco de transferência de sujidades, acidez ou outros agentes de deterioração entre os exemplares da coleção.
Para a confecção das cintas e dos envelopes, foi utilizado o papel Skizze/Pastell. Trata-se de um papel para desenho e pastel, 100% algodão, gramatura de 130g/m2 (60lb), textura de grão fino e coloração naturalmente creme claro. O papel é fabricado pela Hahnemühle FineArt, tradicional fábrica alemã de papéis artísticos, fundada em 1584. Esse tipo de papel apresenta boa flexibilidade, resistência mecânica adequada e estabilidade química compatível com seu uso como material de acondicionamento das estampas.
As cintas podem ser encaixadas com as abas para fora ou para dentro. Optamos pelas abas para fora, porque deste modo a cinta corre por sobre o folder facilmente, além de ficar esteticamente mais aprazível em nossa opinião.

Cinta-piloto com QR Code e Nº de Registro
Foi desenvolvido um modelo piloto de cinta contendo QR Code e número de registro da estampa na catalogação da coleção, impressos por meio de impressora a jato de tinta sobre o papel da Hahnemühle FineArt anteriormente já descrito. O QR Code direciona para a página correspondente à estampa acondicionadas no folder, disponibilizada em repositório digital on-line acessível.
Até o momento, não foram identificados, no âmbito desta pesquisa, estudos conclusivos que avaliem de forma sistemática o impacto de tintas de impressão — sejam de uso doméstico ou profissional (impressão de obras de arte e material para museu) — na preservação de obras em papel, especialmente no que se refere à emissão de compostos voláteis e à estabilidade química a longo prazo.
Portanto, a cinta com QR Code aqui apresentada se trata apenas de um teste. A solução só será implementada definitivamente na coleção quando tivermos embasamento teórico de que este tipo de impressão não prejudica o acervo, em termos de conservação preventiva. O leitor poderá contribuir com este projeto caso possua referências sobre o tema, entrando em contato conosco.
No futuro, pretendemos realizar também testes com aplicativos de realidade aumentada, que reconhecem a estampa e direcionam para a sua ficha catalográfica sem a necessidade de QR Codes. Realizamos um estudo exploratório com esta tecnologia nas obras da galeria de exposição de longo prazo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP). O capítulo de livro resultante desta pesquisa pode baixado gratuitamente no link a seguir:

Notação na cinta com lápis grafite
Não será realizada notação na peça (estampa), mas no seu invólucro (cinta do folder). Enquanto não há uma decisão final em relação ao uso dos QR Codes impressos ou Realidade Aumentada, os folders foram identificados por meio de registros nas cintas, nos quais anotamos informações como o tipo de estampa (por exemplo, Eucalol, Liebig etc.), o nome da série ou o título do cartão, no caso de acondicionamentos individuais.
Para essa identificação, utilizou-se lápis grafite macio (6B ou graduação B), aplicado diretamente sobre o papel das cintas. No presente projeto, optou-se pelo uso de lápis da Koh-I-Noor, tradicional fábrica de materiais artísticos localizada na Checoslováquia e fundada em 1848. O grafite apresenta elevada estabilidade química, baixo potencial de migração e não libera compostos voláteis danosos, sendo, portanto, amplamente recomendado para uso em materiais de acondicionamento em conservação preventiva.

Fitas de reparo dos folders
Não se recomenda, em hipótese alguma, o uso de colas comuns, fitas adesivas comerciais (como fita crepe ou fita transparente do tipo “durex”) para reparos em estampas culturais e nos materiais de armazenamento. Tais colas apresentam baixa estabilidade química, podendo causar manchas, migração de adesivos e degradação do suporte ao longo do tempo.
Para intervenções e reparos indispensáveis nas estampas, o protocolo do projeto recomenda encaminhar o item para um profissional especializado em conservação e restauração de papéis.
Para intervenções e reparos em materiais de acondicionamento — como folders, cintas e envelopes — recomenda-se o uso de adesivos de carboximetilcelulose (CMC), solúvel em água. O projeto optou por adotar a fita de qualidade arquivística Hayaku Hinging Paper, produzida pela Lineco, empresa norte-americana. Esse tipo de fita é constituída tradicionalmente de papel japonês fabricado a partir de fibras vegetais longas, como as da amoreira, o que lhe confere elevada resistência mecânica e boa compatibilidade com suportes em papel.

Exposição das estampas em Museus e demais instituições GLAM
A exposição permanente de estampas culturais em museus, bibliotecas, arquivos e galerias (sigla GLAM, do inglês) apresenta desafios, uma vez que o papel é um material intrinsecamente sensível à luz e às variações ambientais. A radiação luminosa promove processos cumulativos e irreversíveis de degradação, como descoloração, amarelecimento e enfraquecimento das fibras.
Recomenda-se, portanto, a exibição das estampas preferencialmente em exposições temporárias, em mobiliário protegido por vitrine de vidro, em galeria com controle rigoroso das condições ambientais e de iluminação. No caso de exposições de longa duração, coloquialmente denominadas de “permanentes”, recomenda-se a adoção de sistemas de rodízio (rotação) das peças expostas, alternando períodos de exibição e guarda. Como referência, sugere-se a substituição das estampas a cada três meses, podendo esse intervalo ser ajustado conforme os níveis de iluminação e as condições de conservação.
No que tange ao controle ambiental, procurando compatibilizar ainda o conforto humano e os protocolos de conservação, indica-se temperaturas em torno de 15 °C a 22 °C e umidade relativa do ar entre 40 e 60%. Sabemos que tais parâmetros não são consenso. Há um conflito evidente entre o que seria adequado para humanos e o que é do melhor interesse das coleções.
Para estampas com alta sensibilidade, manter a iluminância máxima de 50 lux. Para cartões com média sensibilidade, manter menor ou igual a 120 lux. Para baixa sensibilidade, podemos chegar a 150 lux. Já a radiação UV não deve exceder 20μW/m². Nas reservas técnicas e cômodos de colecionadores particulares, utilizar lâmpadas LED, que são isentas de radiação UV.
Mais informações sobre como planejar o espaço de guarda e de exposição de obras em papel, consultar Hannesch e Lino (2022) e Karpinski (2025). Por se tratar de uma coleção efêmera, cuja durabilidade é reduzida e cujos exemplares existem no mundo aos milhares, consideramos que o papel cultural das estampas na contemporaneidade justifica a sua exposição e, portanto, os mencionados danos acumulados. A preservação de longo prazo deste tipo de acervo se dá no âmbito do registro digital, não da sua materialidade.

Reserva Técnica ou Espaço de Depósito do Colecionador
Nas residências e reservas técnicas, as caixas devem ser armazenadas em mobiliário adequado à preservação de coleções, mantido em boas condições de higiene e livre de infestações por insetos, fungos ou outros agentes de deterioração. Abrir o mobiliário periodicamente, para vistoria e renovação do ar.
Os armários, mapotecas ou arquivos deslizantes (compactadores) devem ser, num plano ideal, confeccionados em materiais incombustíveis e quimicamente estáveis, como aço inox revestido com pó fundido de resina epóxi. Acabamentos com pintura eletrostática a pó apresentam boa durabilidade, aderência e estabilidade.
Na impossibilidade de utilização de mobiliário metálico, ainda que não seja a situação ideal, privilegiar armários de madeira ou MDF de boa qualidade com revestimento o mais inerte possível, na cor clara. Cores escuras dificultam identificação de pragas e sujidades.
No que se refere às condições ambientais, considerando ser uma reserva técnica de coleção privada em ambiente residencial, indica-se valores em torno de 15 °C a 22 °C e 40 a 60% de umidade relativa do ar. Mais importante, contudo, é a manutenção de valores fixos e a estabilidade das condições ambientais. As flutuações de umidade e temperatura são muito danosas para os acervos em papel e devem ser monitoradas com registradores ou dataloggers.
Em instituições do setor GLAM, recomenda-se o armazenamento em reserva técnica, ambiente controlado destinado exclusivamente à guarda de acervos. Em coleções particulares, sugere-se a utilização de mobiliário dedicado, sem compartilhamento com outras funções, instalado em cômodo protegido da luz direta e de fontes de calor, preferencialmente com controle de incidência de luz natural.

Quer saber mais sobre as estampas culturais?
Faça um passeio pelas estampas Eucalol e cartões Liebig no nosso novo Repositório Digital de Estampas Culturais, desenvolvido com o software livre brasileiro Tainacan/WordPress.
Leia, ainda, o resumo da minha palestra sobre este projeto na Universidade de Warwick, Reino Unido: Viajando pela Natureza através das Estampas Eucalol e Liebig
Em breve lançarei aqui nesta plataforma o Manual de Catalogação, Conservação Preventiva e Gestão de Acervos: Estampas Culturais. Este post é parte do conteúdo do e-book gratuito, fruto de nossas pesquisas na UFMG. Fique atento ao blog e inscreva-se na Newsletter para mais notícias sobre minhas publicações!

Notas
COLLECTIONS TRUST. Spectrum. Disponível em: <https://collectionstrust.org.uk/> Acesso em: 17 de jun. 2026.
CONSERVART – MOLDUCENTER. Disponível em: <https://www.molducenter.com.br/> Acesso em: 17 de jun. 2026.
GETTY INSTITUTE. Disponível em: <https://www.getty.edu/> Acesso em: 17 de jun. 2026.
HANNESCH, Ozana; LINO, Lucia. Preservação de acervos científicos e culturais: foco sobre a gestão e tomada de decisão. Rio de Janeiro: MAST, 2022.
KARPINSKI, Cezar (org.). Técnicas para Conservação e Restauro de Documentos em Suporte de Papel. Brusque: Ed. UNIFEBE, 2025.
VEIGA, Ana Cecília Rocha. Gestão de Projetos de Museus e Exposições. Belo Horizonte: C/Arte, 2013.
Imagens: Ana Cecília Rocha Veiga.











