A felicidade e os livros em tempos de isolamento social

Minha aquisição de livros é prioritariamente digital, com algumas exceções. Certas editoras produzem aquele tipo de livro físico que, creio eu, não morrerá jamais, pois envolve uma sofisticada experiência estética e tátil, para além da literária. Não se trata simplesmente de livros, mas de objetos.

A beleza dos detalhes, o apuro dos autores e tradutores, a altíssima qualidade das introduções de contexto, com convidados de peso, asseguram a estas editoras diferenciadas uma leitora fiel, que não consegue mais virar a última página de um livro sem ter, à mão, a primeira de outro.

Além dos livros de gestão e não-ficção que, com certeza, ocupam a maior parte das minhas leituras, interessa-me especialmente crônicas e contos, ensaios e relatos de viagens. Os belíssimos livros sobre os antigos ilustradores científicos que se aventuraram no Brasil, publicados pela editora Capivara1, há muito coroam a estante da nossa biblioteca no escritório de casa.

Já a Carambaia2 é uma grata descoberta dos tempos áridos de pandemia, que preciso creditar aos algoritmos dos tocadores de podcast. Devido ao meu consumo de episódios sobre livros, a inteligência artificial me apresentou Narrativas3, o podcast da editora. Os ouvidos me levaram às leituras e a Carambaia me trouxe mais uma vez ao papel.

Neste post, em especial, quero comentar um trecho da obra de Naguib Mahfuz, em seu livro O Sussurro das Estrelas4, editado pela Carambaia.

Um escritor tenaz

Naguib Mahfuz (1911-2006) é o único escritor de língua árabe agraciado com o Nobel de Literatura (1988). Publicou dezenas de romances e roteiros originais para cinema, além de centenas de contos. No total, foram quase cinquenta livros. Desenvolveu sua carreira ficcional em paralelo ao trabalho como servidor público, tendo ingressado no funcionalismo em 1938 e se aposentado em 1971.

Não poderia deixar de pontuar que seus textos iniciais, na primeira metade do século passado, revelam o interesse intenso pelo Egito Antigo, fruto das visitas semanais que realizava, na companhia de sua mãe, ao Museu Egípcio. Segundo o próprio autor, suas raízes faraônicas e islâmicas assinaram os termos de seu contato com o mundo.5

Crítico de costumes e políticas da época, enfrentou ao longo de sua vida diversos embates, sofrendo inclusive um atentado a faca. Sobreviveu, não sem sequelas, perdendo a habilidade de escrever com sua própria mão. Na velhice, também ficou cego. Não obstante, nunca parou de escrever, ditando suas criações para a filha.

Na ocasião da sua premiação ao Nobel, Mahfuz se afirmou como um autor do Terceiro Mundo e clamou…

Que as grandes potências não observem passivamente a luta cotidiana dos desfavorecidos pela sobrevivência.6

Este clamor não poderia soar mais atual, especialmente quando assistimos o primeiro mundo vacinar seus jovens contra a Covid-19. Enquanto isto, nos países pobres da África, continente de Mahfuz, os grupos de maior risco sequer estão vacinados, como profissionais de saúde e idosos.

Egito de ontem ou Brasil de hoje?

As turbulências da sociedade aparecem nos contos de Mahfuz, publicados em O Sussurro das Estrelas. Foram descobertos junto a um bilhete com a indicação: “para publicar em 1994”. Diversos já haviam saído em uma revista, entretanto, os dezoito que compõem o livro mantinham-se inéditos na ocasião de sua descoberta.

As histórias se passam em uma típica ḥara – viela egípcia – e abordam toda a sorte de acontecimentos corriqueiros. As narrativas sinuosas nos transportam para aquela realidade, a princípio exótica e distante, mas cujos sussurros nos expõem dilemas ainda contemporâneos. O que se foi torna à baila, o que se fez, se fará novamente.7 Mudam as ruas, o país e os tempos, mas o drama humano se desenrola sob as estrelas de sempre.

O trecho do conto a seguir se passa, portanto, no Egito do século passado e diz respeito a outras violências, mas poderia ser sobre a normalização dos altíssimos índices diários de mortes pela Covid-19, no Brasil do século XXI.

Apesar de tudo que já vi e ouvi, não conheço outro período na vida de nossa viela equiparável ao que chamamos de “período sombrio”. Foi uma época estranha, igual a ela nossa viela nunca viveu antes nem depois. (...)

Nunca me esquecerei do dia em que perguntei a um amigo mais velho e mais experiente do que eu:  
 
– O que é isso que está acontecendo diante de nossos olhos?

E ele me respondeu receoso:

– Evidentemente é o tempo no qual as pessoas vivem, adoecem e morrem como o resto das criaturas.

O estranho não era ser um mal desconhecido de todos, mas que ninguém se envergonhasse de falar publicamente de seus danos.

Livro O Sussurro das Estrelas, conto A Flecha8 

A normalização do terror

A esta altura da pandemia, quando o planeta atinge milhões de mortos pelo novo coronavírus, parte considerável em nosso solo, há grandes chances de que todo brasileiro tenha perdido alguém que ama ou, pelo menos, conheça quem perdeu. No meu caso, não se foi nenhuma pessoa muito próxima, mas inúmeros amigos e conhecidos enfrentaram essa tragédia. Em algumas situações, perderam mais de um parente imediato ao mesmo tempo, como pai e mãe.

Apesar de termos uma calamidade inimaginável em curso, o desgoverno do nosso país prossegue dificultando a vacinação, negando a ciência e um auxílio digno para quem precisa, contribuindo para que a adesão ao isolamento social continue baixa. Existem aqueles que efetivamente necessitam ir às ruas, pois lutam diariamente contra a insegurança alimentar. Para estas pessoas, esquecidas pela sociedade, que moram em residências superlotadas e correm riscos diários nos ônibus apinhados de gente, o distanciamento soa como uma alucinação dos bem alimentados.

Enquanto isto, um número considerável de pessoas da nossa população privilegiada poderia permanecer em casa, mas prossegue com suas vidas “normalmente”, numa abordagem pueril e irresponsável da pandemia. Estas pessoas têm geralmente acesso à informação de melhor qualidade, portanto, condições de avaliar que a pandemia é fato, não fake news. Têm mais oportunidades de trabalhar de modo remoto e de cumprir o distanciamento. Contudo, persistem em não fazê-lo, a despeito dos riscos pessoais e do custo em vidas perdidas. É, para mim, motivo de maior revolta a ignorância dos ricos do que a dos pobres, ainda que ambos estejam contribuindo para o caos que nos sobrevém.

O que leva a elite brasileira a lotar restaurantes, promover festas e tocar suas vidas como se nada estivesse acontecendo? Em reportagem do Nexo Jornal sobre a normalização das mortes por Covid-19, a psicóloga e professora titular da USP – Maria Martha Costa Hübner – apontou importantes considerações:

É um fenômeno que caminha junto com a postura e a história de cada um. Então as pessoas que têm uma história de sensibilidade, um preparo educacional, uma postura política de enfrentamento da covid, praticam isolamento social e se protegem, essas são pessoas que se sensibilizam, elas não se acostumam. (…) para sobreviver, em termos de saúde mental, você precisa criar estratégias de buscar suas alegrias individuais, de ter dentro de casa um ambiente que possa ser acolhedor, que você possa fazer em casa suas atividades preferidas, filmes, contatos online com seus amigos, buscar o afeto e algumas alegrias. Se você for uma pessoa sensata e tiver uma história de vida de afeto bem desenvolvida, foi amada e ama, você vai sofrer. E o sofrimento contínuo pode levar à depressão.9

A busca pela felicidade na pandemia

Fazemos parte deste grupo perseverante que está há mais de um ano em isolamento social, com duas crianças pequenas em casa, sentindo a tristeza do mundo. No caso do meu esposo, que trabalha como médico em um Centro de Saúde do SUS, ele está literalmente testemunhando a catástrofe todos os dias.

Neste contexto tão difícil, os livros integram uma estratégia de sobrevivência, como mencionada pela professora Maria Martha. São pequenas “máquinas” extraordinárias que nos transportam para as criações e vivências de outras pessoas, em outros tempos e lugares. Compõem nossa rotina pandêmica, permeada por uma busca constante por felicidade.

Vale pontuar que, em meu entendimento, felicidade e alegria são coisas distintas. Felicidade é aquele contentamento cotidiano advindo da coragem de se viver uma vida íntegra e com propósito, em sintonia com nossos valores e com o mundo que queremos construir para todos. É ser generoso consigo mesmo e com aqueles que dependem de nós, ocupando o nosso dia com o trabalho imprescindível, mas também com horas plenas de atividades enriquecedoras e rituais diários. É quando deitamos na cama para dormir e, mesmo exaustos, sentimos que valeu a pena e que tudo podemos nAquele que nos fortalece. Nestas ocasiões, nós nos permitimos sentir uma pitada de “altivez” por não cedermos aos imperativos do prazer imediato e do hedonismo.

alegria é aquela satisfação fugaz, advinda geralmente das circunstâncias. Até o momento, nesta pandemia, não faltou felicidade, apenas alegria. Para nossas crianças, estampamos sorrisos. Em nosso interior, consentimos no luto. Na verdade, agora, aceitamos que a dor é uma hóspede indispensável aos lúcidos e colocamos um prato a mais na mesa para ela. Recebemos de bom grado a tristeza que ela nos oferece, entendendo-a como um sinal de respeito aos tantos mortos.

Ao mesmo tempo, proporcionamo-nos átimos de escape, doses breves e obrigatórias de alegria, medicina para alma que ajuda a prevenir a depressão, tais como romper o lacre de uma caixa parda recém-chegada, preparar um chá e servir-se da companhia de bons livros.

Aos empáticos contumazes, um convite à desconexão

Nestes tempos sombrios em que vivemos, não há copo meio cheio. E é profundamente perturbador lidar com as pessoas enumerando as “vantagens da pandemia”. Ou pior ainda, minimizando os seus danos.

Se grande parte da população brasileira precisa, urgentemente, ser conectada à realidade, para alguns de nós, com empatia de sobra, o convite saudável é para a desconexão. Estes momentos de ócio criativo e leitura de qualidade proporcionam consolo.

Certos autores e seus escritos dão-nos a certeza de que sempre existiram pessoas sensíveis, de que não estamos sós: boa parte da humanidade nos acompanha no sofrimento e também na esperança. Um dia, finalmente, isso tudo vai passar. Ler é sentir hoje este gostinho. É antecipar, por alguns instantes, esta ardente aspiração.

Notas

1. Editora Capivara.

A editora Capivara, fundada em 2001, publica especialmente livros ilustrados sobre arte, história, arquitetura e fotografia do Brasil. Dedica especial atenção ao século XIX, editando catálogos raisonnés de importantes artistas viajantes, como Debret, Frans Post, Eckhout e Rugendas. O nome da editora e sua logo refere-se à capivara representada em um famoso quadro de Frans Post, exposto no Louvre.

2. Editora Carambaia.

A editora Carambaia é uma editora de literatura, fundada em 2015. As edições são acompanhadas por ensaios de especialistas nos respectivos autores e gêneros. Possui três selos: Edição Numerada, Ilimitada e Coleção Acervo.

Na Numerada, como o próprio nome diz, os livros são numerados manualmente e possuem tiragem de mil exemplares. Publica obras em domínio público. Nos selos Numerada e Ilimitada, os projetos gráficos são personalizados para cada obra.

Na Ilimitada, os títulos abarcam produções que não estão em domínio público e que podem ser reimpressas de acordo com a demanda.

No Coleção Acervo, os títulos da Edição Numerada são publicados com encadernação brochura. Mesmo sendo o selo mais econômico da editora, os volumes são bem produzidos, com contracapas prateadas, fitilho bordado e papel creme. A ideia de colocar os dados da obra na capa ficou bem diferente e charmoso.

Há um cuidado especial com os detalhes também no envio das encomendas, feitas diretamente no site da editora. Nas compras dos selos Numerada ou Ilimitada, o livro vem em um saquinho de pano (um por compra, não um por livro). Para compras a partir de dois livros, o leitor ganha também lápis. Saquinhos extras podem ser adquiridos avulsos e usados como embalagem para presentear o livro. Costumo deixar o volume que estou lendo dentro dele, para protegê-lo da poeira.

Seguem os livros da Carambaia que já li integralmente, com exceção dos dois últimos, já adquiridos. Certamente os textos preferidos de cada um aparecerão por aqui nos meus posts:

Contos completos, fábulas & crônicas decorativas – Fernando Pessoa, Ilimitada, 2018.

O Sussurro das Estrelas – Naguib Mahfuz, Ilimitada, 2021.

Salões de Paris – Marcel Proust, Coleção Acervo, 2018.

Viagem ao Volga – Aḥmad Ibn Fadlān, Coleção Acervo, 2019.

Contos – O. Henry, Numerada, 2016. (leitura em andamento)

Ecos do Mundo – Eça de Queiroz, Numerada, 2019. (na fila)

Observação importante: Não custa lembrar que, conforme a missão desta plataforma, não aceitamos anúncios, links de afiliados e patrocinadores. Portanto, recomendo a Carambaia porque realmente gostei da editora e de seus livros.

3. Podcast Narrativas – Editora Carambaia.

O podcast Narrativas aborda temas variados do universo do livro, como design, tradução, mercado editorial etc. Traz ainda convidados especiais, autores e organizadores de feiras. Gostei muito de todos os episódios que ouvi (e devo ter escutado quase todos), mas como professora em uma escola de Ciência da Informação, não poderia deixar de elogiar o Narrativas 19 (bibliotecas) e a sequência 15 a 17 (perfil do leitor brasileiro).

Infelizmente não é um podcast regular, os episódios aparecem de vez em quando nos principais tocadores. Seria bacana, ainda, que cada episódio tivesse um post no website da editora, com resumo, nomes completos dos entrevistados e links das referências mencionadas nas entrevistas.

4. Livro O Sussurro das Estrelas, Naguib Mahfuz, Editora Carambaia, 2021, p.39.

5. O Sussurro das Estrelas, p.103.

6. O Sussurro das Estrelas, p.107.

7. Não há nada de novo debaixo das estrelas.

É interessante que os contextos, as tecnologias, os costumes e valores mudam drasticamente, mas os temas que envolvem as relações e a existência humana se repetem de geração em geração, de livro em livro, não importa quando foram escritos.

O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol. Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Já foi nos séculos passados, que foram antes de nós.” Eclesiastes 1:9,10

8. O Sussurro das Estrelas, p.39.

9. Normalização das mortes por Covid-19 no Brasil.

400 mil perdas no Brasil: por que parece que normalizamos a morte – Artigo do Nexo Jornal.

Agradecimentos: Alberto Nogueira Veiga e Paulo Rocha, pelos preciosos comentários e sugestões.

Imagem: Ampulhetas e livros (Karolina Grabowska, Pexels), Globo “Stay Home” (Bruno Cervera, Pexels). Demais imagens de Ana Cecília Rocha Veiga.

Newsletter

Em breve teremos um newsletter mensal, com conteúdos exclusivos. Não repassamos seus dados a terceiros e não encaminhamos spam. Cadastre o seu melhor e-mail!  Saiba mais

    Leia também