Narcisistas são pessoas tóxicas e secretamente inseguras, que precisam constantemente de validação externa para manterem a falsa ilusão de que são superiores a todo mundo. De que são intrinsicamente merecedores do melhor que a vida tem para oferecer.
Suprimento narcisístico, dentro desta dinâmica de vício incessante por se sentir especial, é toda atenção com emoção e validação que nós damos aos narcisistas.
Do momento em que acordam ao momento em que vão dormir, tudo que os narcisistas fazem é simplesmente um meio para obter suprimento de suas fontes, obter atenção e validação de suas vítimas. Alimentando, assim, o falso ego grandioso que carregam dentro de si.
Saiba mais sobre isto no post Suprimento Narcisista: O combustível da vida de pessoas narcisísticas.
Neste texto, vamos explorar mais especificamente o suprimento cultural, que é o tipo de combustível narcisístico preferido dos narcisistas cerebrais: acadêmicos, intelectuais públicos, escritores, jornalistas, diplomatas, profissionais do conhecimento, curadores, artistas etc.
Cultura, Arte e Intelectualidade como Escapismos Saudáveis
A história, a intenção e a estética dos objetos e ambientes que nos cercam alteram as nossas vivências, o significado dos momentos e o modo como os interpretamos e os experenciamos. Provavelmente todos nós gostamos de praticar atividades interessantes e de apreciar ou ter coisas bonitas.
A arte e o mundo cultural também podem funcionar como uma espécie de escapismo saudável para as durezas do dia a dia e para as más notícias do que se passa pelo mundo. E tudo isso pode ser positivo, dependendo das intenções.
A questão é que pessoas saudáveis não definem a sua autoestima, sua importância, seu valor próprio e de outrem, a partir das experiências e dos bens que adquirem. Ou ao menos, a vaidade não é o foco principal, mas sim a própria experiência, o prazer, a construção de reflexões, de lembranças e de uma vida boa.
Também não se consideram melhores do que os outros, porque têm coisas legais ou vivenciam atividades diferentes e agradáveis. Mas se sentem simplesmente gratas pelas oportunidades que a vida lhes proporcionou. Se tivessem poder para tanto, gostariam de compartilhar estes privilégios com todos, com qualquer um.
Pessoas saudáveis, generosas e empáticas partilham com o próximo o que têm e desejam aos outros os mesmos momentos incríveis e coisas bacanas que desejam para si.
Mas narcisistas não são assim, são o contrário. Os bens, o conhecimento, as experiências são passaportes para o estabelecimento de hierarquias e rankings, não para o compartilhamento. Estão ali para sinalizar quem tem e quem não tem, quem é e quem não é, quem manda e quem obedece.

Narcisismo e Privilégio: O vício em status e exclusividade
Quanto mais privilégios e exclusividade ele tem, melhor para o narcisista. Porque objetos, cargos e títulos também fornecem suprimento. A aquisição de bens e símbolos de status confere superioridade.
Quanto mais raro, caro e/ou difícil de obter for algo, mais único é aquele objeto ou experiência. Portanto, numa visão narcisística, mais especial é também quem o possui. E ao ostentar e mostrar aos demais suas conquistas materiais ou experiências exclusivas, o narcisista obtém rios de suprimento dessas pessoas, suas fontes.
Em resumo, objetos e bens conferem autossuprimento, são suprimento em si e comunicam unicidade ao narcisista. E extraem suprimento dos outros, através da admiração, elogios e inveja. O narcisista se sente a última bolacha do pacote, um ser praticamente divino.
O narcisismo está, portanto, na raiz do consumismo: casas exclusivas, ambientes charmosamente decorados, restaurantes de alta gastronomia, carros de luxo, roupas de grife, relógios preciosos, viagens exóticas, festas nababescas, equipamentos tecnológicos de ponta, itens colecionáveis, objetos raros ou feitos à mão.
Tudo isto, no universo narcisista, não é prazer artístico, sensorial, experiencial ou estético: é suprimento.
O narcisista precisa se sentir o ser mais único do universo. Pessoas “especiais” merecem viver experiências “especiais” e ter coisas “especiais”. Não basta usufruir de forma compartilhada com os outros.
Narcisistas querem acessar ou possuir aquilo que pouca gente tem. De preferência, só ele, mais ninguém.

Suprimento Cultural e Intelectual: O jogo elitista dos narcisistas cerebrais
No meio intelectual, os objetos e experiências mudam, mas a lógica é a mesma.
Tudo fornece suprimento cultural narcisístico: coleções de obras de arte, livros raros e primeiras edições, mapas antigos, concertos, vernissages, eventos culturais fechados para poucos, bistrôs difíceis de se conseguir reserva, antiguidades, gastronomia gourmets, drinks sofisticados, viagens inusitadas, itens diferenciados e, principalmente, customizados unicamente para ele.
Dentro desta mesma linha, o narcisista é obcecado em dominar o vocabulário erudito, as normas de etiqueta e os códigos sociais da elite cultural. São eles, aliás, quem ditam as insanas regras não escritas dos meios intelectuais, artísticos e acadêmicos. E, então, ostentam seus brasões silenciosos e invisíveis, que sinalizam para os reles mortais que eles pertencem a uma “casta diferenciada”. Que eles fazem parte do clube, que são “gente de dentro” do círculo dos iniciados.
“Ana… então, toda pessoa rica ou culta que gosta de coisas boas e bonitas seria necessariamente narcisista?” Não, como já dito anteriormente, intenções fazem toda a diferença.
Narcisistas não fazem viagens pela satisfação cultural, fazem “checklist de lugares” e “coleta de experiências exclusivas” simplesmente para impressionar os outros e obter suprimento.
Os rituais diários e os objetos charmosos que compõem o cotidiano do narcisista não estão lá para trazer mais alegria, delicadeza e escapismo. E sim para a obtenção de poder e controle sobre os outros. Provar para os demais que seu cotidiano não é medíocre como o da maioria das pessoas é o objetivo. As coisas, as atividades e os relacionamentos são sempre meio, não fim.
Narcisistas não colecionam livros raros ou obras de arte por amor ao conhecimento ou pelo prazer estético e conceitual que estes bens lhes proporcionam. Narcisistas colecionam “iscas artísticas e intelectuais” para atrair vítimas e conseguir suprimento!
Coleções particulares e sistemas de exclusão
Na teoria do patrimônio cultural, estudamos a sociologia por trás do colecionismo, que está na gênese dos arquivos, bibliotecas e museus.
De fato, alguns dos principais palácios e acervos do mundo pertenciam à elite de suas épocas. À realeza, ao clero, à burguesia e à aristocracia. E foram democratizados por meio da institucionalização.
Ou seja, o que estas instituições abertas ao público geral fizeram foi pegar algo que era de uso exclusivo de poucos – os palácios e suas ricas coleções de artes e livros – e dar acesso à sociedade, a qualquer um. Nada mais empático do que isto. Todos nós, juntos, podendo usufruir e ajudando a preservar o patrimônio cultural coletivo.
Então, pelo menos em tese, as instituições científicas e culturais sem fins lucrativos deveriam ir na contramão do exclusivismo.
Na prática, mesmo estas coleções públicas podem ser usadas para garantir privilégios e perpetuar sistemas de exclusão. Não vou adentrar neste tema aqui, porque é tão interessante e tem tanto a ver com o meu trabalho, que merece seus textos próprios.
O “capital” cultural e o Narc Elitismo
Para quem já quiser iniciar leituras sobre o esnobismo e o elitismo cultural, recomendo o capítulo introdutório de A História da Arte, de E.H. Gombrich, e os livros A Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire, e A Distinção: Crítica Social do Julgamento, de Pierre Bourdieu.
No contexto brasileiro, temos a obra do sociólogo Jessé de Souza, que bebe de Charles Taylor e outros importantes intelectuais contemporâneos para analisar a elite brasileira. Destaque para o livro A classe média no espelho: Sua história, seus sonhos e ilusões, sua realidade. Algumas das publicações dele estão disponíveis em inglês e alemão.
Segundo as críticas destes pensadores, todos estes símbolos de status da intelectualidade são frutos do capital cultural que as pessoas adquirem com esforço, tempo, privilégios e dinheiro: educação, títulos acadêmicos, conhecimento, leituras, hobbies charmosos, viagens etc.
Principalmente, tempo livre, saúde, contexto, autonomia, liberdade e dinheiro para se dedicar a tudo isso. O narcisista exibe orgulhoso sua raquete e seu uniforme de tênis no meio da manhã, porque seus horários flexíveis lhes permitem realizar seus hobbies à hora que bem entendem, sem ter que dar satisfação à chefes ou colegas de trabalho.
Enfim, o próprio fato de denominarmos os patrimônios tangíveis e intangíveis de “capital” cultural já reforça o materialismo da sociedade vigente. Tudo pode ser “quantificado”, “ranqueado”, “capitalizado”, transformado em comodities. Mais narcisístico, impossível!
O que fazer diante disto tudo, se você, como esta que vos escreve, ama as artes, a cultura e os livros?

Como trabalhar no mercado cultural ou intelectual sem fazer parte deste jogo?
Tenho graduação em Arquitetura e Urbanismo, doutorado em Artes e atuo na área de patrimônio cultural e museus desde que entrei na universidade como estudante.
Em suma, vivo na Narcisolândia há décadas. Quando me dei conta deste fato consumado, eu me fiz a seguinte pergunta:
“É possível amar os livros, os museus e as artes e trabalhar com cultura e intelectualidade sem fazer parte do jogo narcisístico que está literalmente no cerne deste mercado?”
A minha conclusão é que sim, mas as opções para se sustentar exclusivamente deste mercado do conhecimento cultural, mantendo a autonomia e a independência em relação às pessoas tóxicas, são extremamente limitadas.
Se eu não fosse uma professora concursada, teria mudado de ramo. E antes de ser professora na UFMG, eu era arquiteta concursada do setor de Patrimônio Cultural da Prefeitura de Belo Horizonte. Ou seja, investi num tipo de carreira (concurso público) que me conferia segurança, considerável autonomia e liberdade de escolha e expressão.
Entretanto, por toda a minha adolescência e graduação, meu plano era ser empresária e ter minha própria empresa de consultoria cultural. Minha perspectiva mudou quando fui trabalhar neste mercado e entendi como ele realmente funciona.
Se você quer viver de cultura e é uma pessoa empática e de caráter, faça um concurso, na minha opinião. Ou escolha um trabalho seguro de meio período que lhe garanta o “feijão com arroz”. E, em paralelo, dedique-se parcialmente ao mercado cultural. Porque assim, você poderá dizer “não” às oportunidades e pessoas tóxicas.
É difícil conciliar ética e saúde mental com o mercado cultural ou acadêmico. Acho intelectualmente honesto comunicar isto aos meus leitores e aos meus alunos na universidade, porque é um fato.
Portanto, antes de tomar decisões profissionais e pessoais relativas ao setor cultural ou intelectual, recomendo estudar muito sobre sociologia do trabalho e soft skills (habilidades leves). Deste modo, será possível ir mapeando as pessoas, os nichos e as oportunidades mais saudáveis desde o início.
Dê especial atenção à livros, conteúdos e artigos voltados para os psicopatas funcionais e os narcisistas cerebrais, que são os tipos que mais aparecem nestes campos e lugares.
É inclusive este um dos meus objetivos com esta série de posts sobre narcisismo, psicopatia e comportamentos tóxicos: trazer consciência acerca deste tema e, também, encontrar caminhos para mudarmos o status quo.
A academia, os museus e as galerias de arte estão permeados de valores narcisísitcos e comportamentos psicopáticos. Mudar isso quase sempre não é possível, não depende de nós, é mais forte do que nós. Mas no que se refere à nossa postura individual, às nossas decisões pessoais, este jogo pode virar.
Saber identificar os narcisistas cerebrais e deixar de lhes fornecer suprimento é o primeiro passo rumo ao xeque mate!

Notas
Clique aqui para ver livros, artigos, documentários e outras referências deste post.
Agradecimentos: Alberto Nogueira Veiga e todos os que me deram seu precioso feedback. Aos autores, pesquisadores e produtores de conteúdo sobre narcisismo, psicopatia, comportamentos tóxicos na gestão trabalho, por abrirem meus olhos para esta questão tão crucial.
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