Por que técnicas de gestão e produtividade com frequência não funcionam?

(O trabalho remoto se difunde lentamente) devido a um abismo cultural. Antes de mais nada, a maioria da população sempre viveu num outro contexto psicológico, no qual a separação entre vida de trabalho e vida doméstica era considerada um fator de promoção social. Até que esta geração, que passou a vida inteira, desde o nascimento, dentro da organização industrial, seja superada, será difícil acolher sem traumas a reordenação dos lugares da vida e do trabalho. Um outro obstáculo são os chefes, acostumados a ter os subalternos na palma da mão. E, além disso, um fator que não é mencionado nunca, a dimensão erótica da empresa. A empresa é um lugar de paixões, amores, ligações, atrações. Há também a resistência dos sindicatos, do chefe de pessoal, da dor de muitos de abandonar a hora extra. A repulsa dos homens, mas também de algumas mulheres emancipadas, pelo trabalho doméstico, considerado degradante. (…) Há a falta de hábito das empresas de calcular, além do desperdício de tempo, também o desperdício de espaço. E há o masoquismo coletivo: nem sempre as pessoas desejam viver melhor e ser mais felizes.”

Domenico de Masi1, sociólogo do trabalho italiano – livro O Ócio Criativo

Na primeira década do milênio, quando dirigi o Museu da Escola de Arquitetura da UFMG, adaptei um software de gestão de projetos para construção civil na coordenação das atividades do museu.

Recordo-me de “assistir” duas colaboradoras interagindo no software e tocando o serviço sem nem precisarem de mim. Tomavam decisões e avançavam com competência, sem demandarem um “capataz” ou intervenção. Como realizavam um excelente trabalho, apenas observei. Elas tinham liberdade e eu mais tempo livre para outras demandas do museu e da vida acadêmica.

Lembro de ter pensado: “Uau, isso é incrível! Esse tipo de processo e de software será o futuro do trabalho.

Há tempos que temos inúmeras ferramentas e modelos de gestão disponíveis, a exemplo do Scrum ou PMBOK. Aquele software que adotei no museu parece brincadeira de criança perto das soluções que temos hoje, ao alcance de todos os orçamentos. E onde estão as empresas e instituições fazendo efetivo uso deles?

Não obstante todos esses recursos, os problemas de saúde dos trabalhadores, física e mental, estão cada dia mais se agravando. Os “operários do conhecimento” estão sendo submetidos a epidemias de e-mails, aplicativos de mensagens e processos defasados de organização laboral. Tudo isso leva muitos à exaustão, ao denominado burnout.

A produtividade, ao contrário das promessas da revolução digital, não acompanhou o ritmo das inovações. E a sensação que se tem é que mais e mais ferramentas e processos de vanguarda estão sendo desenvolvidos, mas poucos, de fato, implementados no cotidiano do trabalhador comum.

Por que isso acontece? Sistemas de produtividade e gestão não funcionam na prática, só na teoria?

A primeira parte dessa crise é decorrente da ausência de bons valores, ética profissional, inteligência emocional e soft skills.

A citação de Domenico de Masi, que abre este post, resume os desafios enfrentados na implementação não somente do trabalho remoto, mas dos demais sistemas de organização como um todo.

Não há ferramenta ou técnica de produtividade que dê conta de pessoas problemáticas. E vivemos numa sociedade emocionalmente doente.

Neste sentido, ler na faculdade o livro O Ócio Criativo mudou a minha vida.

Percebi que para ser realizada no trabalho, tendo em vista esse cenário social turbulento, era altamente aconselhável que eu investisse em uma carreira que me concedesse algumas condições importantes, tais como:

  • Autonomia para gerir como executar as tarefas individuais sob minha responsabilidade.
  • Liberdade de expressão e de exercício profissional, de modo com que pudesse agir conforme os meus valores e meus padrões éticos.
  • Poder de escolha dos meus parceiros imediatos de projetos ou atividades cotidianas.
  • Direito a afastamentos por motivo de doença ou problemas pessoais relevantes, sem sofrer retaliações.
  • Férias de, no mínimo, um mês por ano, além de não trabalhar em finais de semanas e feriados.
  • Carga horária máxima de 8 horas diárias, sem hora-extra. Se eu trabalhasse mais do que isso, o que ocasionalmente acontece até hoje, seria por escolha própria e em situações excepcionais.

Ainda que em graus diferenciados, obtive essas condições em todos os trabalhos que exerci após me formar: freelancer como consultora de patrimônio cultural, arquiteta concursada atuando na Diretoria de Patrimônio Cultural de Belo Horizonte e, por fim, professora na UFMG.

Não foi, portanto, uma coincidência “acidental”, mas algo planejado da minha parte. Influenciada pelas pesquisas da sociologia do trabalho, realizadas por Domenico de Masi e outros intelectuais, tracei intencionalmente uma jornada profissional que me oferecesse condições de ser produtiva mantendo minha qualidade de vida. Ter isso como norte é algo que recomendo vivamente aos leitores e leitoras.

A segunda parte do problema, que faz com que as técnicas de gestão não funcionem, envolve o contexto de capitalismo selvagem no qual o mundo do trabalho está inserido, culminando em:

  • Excesso de tarefas e de carga horária.
  • Ambientes pouco humanizados e inclusivos.
  • “Uberização” do trabalho e desregulamentação dos direitos trabalhistas.
  • Vício digital e modelos de negócios venais, como a economia da atenção e o capitalismo de vigilância.
  • Alta exposição da vida profissional e pessoal, com inúmeras plataformas on-line que permitem às pessoas exibirem o seu “palco”, sem necessariamente revelarem todas as dificuldades de seus “bastidores”.
  • Estímulo à competição e não à colaboração, focando na comparação com o outro e não consigo mesmo, com o seu próprio progresso.
  • Culto às celebridades, ao individualismo e às conquistas pessoais em detrimento das coletivas, agravado pelo fato de que os parâmetros de sucesso agora são mundiais, não locais.

Por trás de cada prêmio Nobel há centenas, às vezes, milhares de cientistas anônimos que colaboraram com a pesquisa e que não estão devidamente creditados.

Por trás de cada intelectual renomado, há às vezes famílias destroçadas, porque se priorizou o trabalho e o sucesso de maneira patológica. Ou pior, família nenhuma, sequer conexões profundas de amizade. Impera a solidão ou relacionamentos de laços frágeis, movidos por interesses momentâneos.

Este individualismo gera inúmeras consequências, como a redução dos debates acerca do que constituiria a vida boa. Quem elabora a questão de maneira excelente é Charles Taylor2 em seu livro A Ética da Autenticidade. Taylor vai dizer:

Que a defesa da autenticidade assuma a forma de um tipo de relativismo suave significa que a defesa enfática de qualquer ideal moral está de algum modo fora de cogitação. Pois as implicações, como eu acabei de descrever, são de que algumas formas de vida de fato são mais elevadas que outras, e a cultura da tolerância para com a autorrealização individual se esquiva dessas reivindicações. (…) As pessoas da cultura da autenticidade, como quero denominar isso, dão apoio a certo tipo de liberalismo, que tem sido abraçado por muitos também. Trata-se do liberalismo da neutralidade. Um dos seus princípios básicos é de que uma sociedade liberal precisa ser neutra a respeito de questões sobre o que constitui uma vida boa. A vida boa é o que cada indivíduo busca, à sua própria maneira (…) o resultado de sua teoria é banir para a periferia do debate as discussões a respeito da vida boa.

Charles Taylor – A ética da autenticidade, pg. 27.

Numa época de questionamento dos valores universais, o relativismo e o individualismo levam as pessoas a irem em busca de uma vida que seja boa tão somente para si, ainda que em detrimento de princípios éticos elementares e do bem-estar coletivo.

Neste contexto, manuais e livros de autoajuda ensinam hoje lições sobre como atingir a maestria e “leis” de como galgar as altas esferas do poder, atropelando tudo e todos pelo caminho. Conselhos que fariam até Maquiavel corar de vergonha, mas são encarados na contemporaneidade como práticas socialmente aceitáveis. Aliás, ser obcecado com seu sucesso e com métricas quantitativas questionáveis é considerado “louvável”.

A linha que separa o certo do errado parece cada dia mais tênue.

Com efeito, os níveis de psicopatia e narcisismo estão aumentando cada dia mais e costumam ser mais altos do que a média da população em ambientes extremamente competitivos, onde as pessoas buscam destaque pessoal, poder, dinheiro e alta performance a qualquer custo.

Neste contexto tenebroso, a minha estratégia pessoal de carreira me permite passar ao largo dessa cultura workaholic. Assim, posso conciliar atuações profissionais exigentes com uma vida pessoal e cultural igualmente rica e frutífera.

Minhas expectativas são elevadas. Não quero apenas ser uma acadêmica produtiva, dando a devida atenção aos diversos papéis que fazem parte da minha profissão: professora, orientadora, pesquisadora, escritora, gestora de projetos, colega de trabalho, divulgadora científica, etc. Quero estender esses resultados positivos às demais frentes que compõem aquilo que sou: cristã, cidadã, esposa, mãe, filha, amiga e por aí vai.

Não pretendo bater recordes, quero viver cercada de amor. E a importância dos anônimos que têm amor ao próximo e fazem diferença no cotidiano ficou ainda mais evidenciada na pandemia de Covid-19. Solidariedade e esforço coletivo nunca nos fizeram tanta falta.

Assim, meu mais importante projeto de vida não foca em conquistas extrínsecas, mas em mudanças internas. Aquilo que somos deve ser o nosso melhor resultado para o mundo.

Mais importante do que chegar ao topo é ser feliz ao longo da jornada. Mais impactante do que ser a maior autoridade na minha área de atuação é ser a melhor pessoa possível para aqueles que convivem diariamente comigo.

Neste sentido, talvez eu nunca seja a melhor em nada, pois estou buscando ser excelente em muitas coisas ao mesmo tempo.

Notas

1 – Domenico de Masi.

Domenico de Masi é um importante sociólogo do trabalho, nascido na Itália em 1938.

Com apenas 19 anos já publicava ensaios sobre sociologia urbana e do trabalho. Aos 22 anos, começou sua carreira acadêmica como docente na Universidade de Nápoles. Atualmente é professor emérito na prestigiosa Universidade La Sapienza de Roma, onde leciona desde 1977.

É um dos pioneiros no mundo na defesa e pesquisa do trabalho remoto e do ócio criativo, termo que cunhou em seu livro homônimo de 1995.

Autor best-seller, com dezenas de livros publicados e centenas de milhares de livros vendidos só no Brasil. Aliás, Domenico de Masi é fã do Brasil, onde esteve por diversas vezes, inclusive em minha cidade, Belo Horizonte. Escreveu ensaios e livros sobre nosso país, além de ser cidadão honorário do Rio de Janeiro.

Com mais de 80 anos, realiza videoconferências com frequência e segue produzindo conhecimento, sendo seu último livro o Smart Work (2020).

2 – Charles Taylor.

Charles Taylor, nascido no Canadá em 1931, é um dos mais importantes filósofos da contemporaneidade.

É professor emérito de Filosofia na Universidade de McGill, tendo também se formado e atuado em Oxford. Taylor já ministrou palestras em universidades brasileiras, inclusive em Belo Horizonte.

Sua vastíssima produção intelectual abarca temas como filosofia política, ciências sociais, história da filosofia e filosofia da religião.

Charles Taylor também é cristão.

Agradecimentos: Alberto Nogueira Veiga, Paulo Rocha, Heloísa Helena Rocha e todos os que me deram seu precioso feedback, obrigada pelos comentários e sugestões.

Imagens: Gráficos, notebook e lápis (Fauxels, Pexels), Laboratório (Karolina Grabowska, Pexels), Homem e mulher brigando (Karolina Grabowska, Pexels).

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